Duas Técnicas para Afiar a Criatividade
- Rodrigo Figueiredo

- 28 de mai.
- 5 min de leitura
Parece loucura pensar que exista uma fórmula para ser mais criativo — e, até certo ponto, é. Mas existem técnicas que auxiliam o escritor (e qualquer outro artista) em sua jornada de produzir algo original, algo que não seja uma cópia descarada de influências recentes.

Antes de entrar em alguns exemplos dessas técnicas, é importante dizer que a criatividade é sempre a convergência de influências das quais o artista está ou não consciente. São outras obras de artes (pinturas, esculturas, livros, filmes, séries de TV, às vezes um único poema que nos impacta) e experiências pessoais (próprias ou de terceiros que nos contaram as suas), que se misturam no caldeirão da mente do artista e resultam em novos produtos.
Vamos a alguns exemplos de técnicas para estimular a criatividade.
Exercício 1: lista de interesses
Em seu livro Anatomia da História, o consultor de roteiros para Hollywood, John Truby, recomenda, dentre outros exercícios, que o escritor/roteirista faça uma lista de tudo o que gostaria de ver na tela ou em livros. Ele encoraja o artista a preencher páginas e páginas (e eu faço o meu palpite de que talvez seja interessante usar uma ferramenta de organização como o Trello ou o Notion), com os itens que compõem a sua resposta e chega a sugerir que sejam anotados: personagens que povoem a imaginação do escritor; plot twists interessantes; diálogos; e temas ou gêneros.
A ideia é pensar, sobretudo, em elementos que costumam atrair o artista para os filmes ou livros que prendem o seu interesse.
Ao compor essa lista (e uma outra, recomendada logo em seguida no livro, mas que eu não vou mencionar, para não entregar demais do seu conteúdo), o escritor tem praticamente uma base de dados, com tudo o que o atrai nas histórias de outros escritores, e é a partir dessa sopa de letras que ele consegue extrair as suas próprias histórias, as histórias que irá contar com um interesse verdadeiro.
Não é preciso dizer, mas, por razões de organização, o escritor deve guardar essa lista em um formato que seja de fácil acesso e que ele possa consultar, reler e atualizar com frequência. Hoje em dia, o bloco de notas do celular ou as ferramentas de organização talvez sejam o lugar mais adequado, mas outras pessoas vão preferir um arquivo doc ou uma pasta com papéis, em formato físico.
Exemplo do Exercício 1
A lista abaixo é um exemplo imaginado, apenas inspirada na lista que eu mantenho em meu bloco de notas e que não representa a minha própria lista de interesses.
- personagens melancólicos e desacreditados em tudo (os homens do submundo, como alguns dos protagonistas de Dostoiévski e Camus);
- um tutor, que personifica a importância de procurarmos conselho em pessoas experientes e livros (pode ser uma pessoa, como um professor ou um mago, ou pode ser um objeto ou algo como um fórum de internet, desde que o protagonista consiga extrair desse tutor os conhecimentos de que precisa, para vencer os próprios defeitos);
- conselhos de vida, sejam ditos por algum personagem, sejam camuflados na própria trama;
- motos e a estética que as acompanha (rock and roll, Harley, jaquetas de couro, bandanas, escapamentos cromados, Jack Daniels, James Dean);
- escritórios minimalistas e imponentes, reuniões com diálogos interessantes, conflito de egos;
- shows de punk rock em lugares com uma estética underground;
- bibliotecas antigas e a estética que as acompanha (madeira, cheiro de livros antigos, a infinidade tranquila de universos dentro de cada prateleira);
- o coração (ou a alma) de São Paulo, com a Avenida Paulista, a República, a cultura de cinemas e teatros e orquestras, os restaurantes e barzinhos, o asfalto, o céu claro e estático, quase congelado.
Não vou incluir nenhum exemplo de diálogo, porque ocuparia muito espaço, mas acho que é o suficiente dizer que fragmentos de diálogo já servem para compor a lista, sobretudo quando trouxerem respostas inesperadas à frase do interlocutor (o que pode ser treinado com exercícios de riposte).
Exercício 2: especulação imaginativa
Escrever um exemplo da lista de interesses de John Truby (vamos chamá-la assim, embora a tradução brasileira tenha usado o termo lista de desejos) remete-me à ideia de especulação imaginativa, exposta como a primeira lição do Wonderbook, de Jeff Wandermeer. Em essência, Wandermeer pressupõe que uma habilidade natural do escritor é a de especular livremente sobre histórias imaginadas.
Para não utilizar o seu exemplo (e encorajar o eventual leitor deste blog a adquirir o livro, de modo que o seu autor não tenha nenhum prejuízo com o que vou dizer), invento o meu próprio.
Dois Exemplos do Exercício 2
Alguém começa uma história, dizendo que guerreiros gregos sitiaram a cidade de Troia. Alguém que já tenha lido a Ilíada vai dizer que o cerco dura quase dez anos e os combates que se seguem são sangrentos, mas inconclusivos, até que Ulisses tem a ideia do Cavalo e os helenos conseguem entrar nos muros.
A própria ideia do Cavalo de Troia já poderia ser um exemplo de produto da especulação imaginativa: a imaginação, correndo solta, especula sobre as possibilidades mais fantásticas possíveis, até encontrar uma que resolva o problema (ou a história).
Mas em quais alternativas Ulisses teria pensado, antes de os gregos concluírem que o Cavalo era a melhor opção? Apelar para uma catástrofe provocada pela mãe de Aquiles, a deusa marítima Tétis? Recorrer ao sacerdote de Apolo cuja história é contada no início da Ilíada, para que interceda pelos gregos junto ao Flecheiro? Buscar o auxílio de Atena, para construir estruturas capazes de vencer os muros até então intransponíveis da cidade? Recolher-se de volta aos acampamentos e esperar mais dez anos, na esperança de que os troianos capitulem? Pedir audiência com Helena, na tentativa de convencê-la a voltar à Hélade e ao casamento com Páris?
É natural, no processo de especulação imaginativa, que algumas alternativas sejam mais fantásticas e outras, mais realistas.
E é natural que o processo nos leve a fazer perguntas, do tipo:
- Por que os muros de Troia eram considerados intransponíveis? Não havia nenhuma tecnologia capaz de derrubá-los ou de levar os gregos até o topo da muralha?
- Quais deuses auxiliavam cada um dos partidos, na guerra? Quais dádivas poderiam contornar a proibição imposta por Zeus, de que os deuses não ajudassem os seus favoritos de forma direta? Seria possível, por exemplo, que um heroi recebesse uma força sobrehumana e investisse eficazmente contra os muros ou os portões?
- Os troianos não poderiam ser convencidos a capitular? Nem mesmo depois do duelo que ocorre nos cantos finais do livro?
- Como a guerra impactava a vida da população de Troia? Não era possível, para os gregos, conquistar aliados entre o povo da cidade, que vinha sofrendo com escassez de comida havia anos?
A especulação imaginativa vai conduzindo o escritor por caminhos que ele não consegue enxergar, sem esse esforço.
Um outro exemplo, talvez mais próximo do que Wandermeer propõe, é especular a respeito de pessoas que passam pela nossa vida. Quem são os seus pais? Onde elas vivem e com quem? Como é a sua rotina? Quais bandas ou cantoras pop ouvem? O que assistem, na TV? O que fazem, quando querem um passeio pela cidade? São pessoas que gostam de cinema, de beber com os amigos, de ir a festas? Qual é a sua bebida favorita? Quais comidas não toleram, de jeito nenhum? Quais medos elas escondem até mesmo de parentes próximos e namorados?
Essas perguntas nos levam pelo caminho da especulação imaginativa, e podem ser perguntas sobre pontos cada vez mais específicos, sem limites para isso. Quantos sapatos a pessoa tem? Onde compra as suas roupas e com qual frequência? Por que escolhe as roupas que escolhe, e não outras?
Conclusão
Não existe uma fórmula definitiva para a originalidade, mas os dois exercícios apresentados acima dão caminhos alternativos, para que o escritor possa criar histórias novas e que não causem no leitor a impressão de estar assistindo ou lendo uma imitação.



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